Evento
Festa reforça os elos com os saberes tradicionais em Morro Redondo
Evento que ocorreu sábado (10) e domingo (11) teve como atrações os doces coloniais e a música e as danças de origem alemã
Carlos Queiroz - DP -
Nem a temperatura em torno de 12º graus no início da tarde deste domingo (11), apesar do dia ensolarado, diminuiu a animação da comunidade de Morro Redondo, que recepcionou com entusiasmo e simpatia os visitantes da Festa do Doce Colonial, além de aproveitar o evento. E não faltaram música e dança de origem alemã e principalmente os doces, designados como patrimônios imateriais pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A iniciativa que começou no sábado (10) foi realizada na praça 12 de maio.
A doceira Zilda Silva de Oliveira, 76, foi uma das que mostrou ao público como é fazer o tradicional schmier no tacho. Em um fogo de chão ela fez a iguaria ao vivo ali na praça e quem quisesse poderia ajudar a mexer a grande panela de cobre. E a proposta era essa mesma, desafiar os visitantes e, quem sabe, fazer o público rememorar algo já vivido, além de reforçar os elos com os saberes tradicionais passados de gerações para gerações.
Zilda conta que aprendeu esta arte culinária com a mãe dela, a partir dos oito anos. A família era muito humilde e tirava a sobrevivência da venda dos doces e do pomar de pêssegos, em uma propriedade de três hectares. "Era o ganho que eles tinham, era fazer pessegada e levar para Pelotas. A mãe fazia umas malas de saco de algodão e o pai carregava na frente e nas costas, na volta de Pelotas ele vinha com as malas cheias de comida", conta.
Depois de algum tempo a família conseguiu comprar mais terras na colônia Santo Amor, onde plantou mil mudas de goiabeira. "A mãe fazia goiabada, laranja azeda, vinho de laranja e eu aprendi a fazer tudo isso." Por causa da idade, Zilda não conseguiu manter a propriedade do Santo Amor, mesmo assim não deixa de fazer seus doces e o insumo (as frutas) vêm de propriedades de amigos. "Eu tenho uma amiga aqui no Morro Redondo que me fornece goiaba todos os anos e o pêssego eu compro na fábrica. E faço os doces caseiros pra vender."
Além de fazer os doces, Zilda ainda faz as pás de madeira para mexer o tacho. E foi com um utensílio deste, feito esta semana, que ela convidava o público a sentir como é esse trabalho. "Não é pesado não, eu tenho costume, nem sinto e faço no fogão à lenha", diz. A única coisa que a doceira lamenta é não ter tido filhos e as sobrinhas não seguiram essa tradição. "Hoje na minha família só eu faço doces, ninguém mais se importou em aprender."
Eventos divulgam
A extensionista da Emater Adriane Lobo, integrante da Comissão Organizadora da Festa do Doce Colonial, relembra que o Morro Redondo é uma das cidades que recebeu o registro no livro de saberes do Iphan de patrimônio imaterial da tradição doceira. "Uma forma que temos de salvaguarda dessa tradição e de divulgá-la é através das festas. A Emater trabalha principalmente em relação a oportunidade para os agricultores familiares, o pessoal que trabalha com artesanato poder ter uma renda, colocando seus produtos à disposição dos moradores e visitantes. Temos aqui em torno de 700 propriedades e trabalhamos nessa perspectiva de melhoria da produção e agregação de valores."
Na feira de expositores da Festa estavam representantes de agroindústrias conhecidas pela qualidade de seus produtos, como a João de Barro, com o doce de leite premiado recentemente no Estado, o queijo Bem-Me-Quer, os embutidos Novak e os vinhos Nardello. "São agroindústrias que temos no município a partir desse trabalho que a gente faz de divulgação, além disso temos agroindústrias de ovos, da Granja da Figueira, e de panificados da Dona Zilda", comenta Adriane.
Quem foi até o local também pode conhecer um pouco mais sobre o roteiro turístico Morro de Amores, criado há seis anos. "Começou com três empreendimentos e hoje temos 37, desde pousadas, cafés, serviços de produtos orgânicos, tudo isso vem movimentando muito Morro Redondo."
O turismo ocupa um espaço importante na economia do município, segundo Adriane. Anualmente, além do evento deste final de semana, que acontece durante a Fenadoce, são realizadas as festas da Páscoa e a Cores, Flores e Sabores, na primavera. "Procuramos dar um tema para esses eventos, mas todas as festas são para salvaguarda da tradição doceira", fala a extensionista.
Feliz com a movimentação, a vendedora Daiane Bigliardi, da Pomerania - Produtos coloniais, conta que as cucas feitas pelas doceiras Beatriz Danda e Priscila Danda, estavam vendendo bem. A propriedade da família entrou, recentemente, no roteiro Morro de Amores, mas por enquanto não está recebendo visitantes, a atuação se restringe à produção de cucas, pães caseiros, bolachas, geleias e schmiers para venda nos eventos. "Temos a ideia de fazer um café colonial com as nossas cucas e doces e esse tipo de evento é muito importante para divulgar os nossos produtos e dos outros também."
Visitante de Pelotas
O gerente industrial Luís Chagas, 59, saiu de Pelotas com a família para passar o dia em Morro Redondo e aproveitar a festa. Essa foi a primeira visita ao evento, que eles ficaram sabendo que ocorreria, no último domingo quando foram ao vizinho município para almoçar. "É importante incentivar a realização de eventos como este. É a nossa Serra, a gente tem que valorizar as coisas da terra, ainda mais porque são doces coloniais e pega um pouco da tradição da cultura alemã, que temos aqui."
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